É muito comum a falta de uma cidade urbanizada para com os habitantes deste local, quiça lembrando que os habitantes são de espécies diferentes e que tem os mais antigos. Não seria diferente na construção das escolas e novos bairros, por mais que diga-se ecológica e sustentável, a ecologia é privilégio do predador econômico, infelizmente. Ainda assim, há a resistência de pássaros, raras abelhas, formigas, morcegos entre outros tantos habitantes de uma escola, como as crianças. Sim, esse ser ainda é uma espécie rara, onde seu modo de enxergar transborda o que o concreto, o cimento e o adulto que tentam tampar ou eliminar.
Nesse contexto lembro de duas crianças e suas grandiosas, ingênuas, empatias e esperanças com a pouca vida de um filhote de passarinho. Um sem ninho em meio a gritos, brigas, bolas, mais gritos, brincadeiras, brincadeiras indevidas, chicle no cabelo e longas explicações. Duas meninas acham no chão de um pátio acimentado ovinhos quebrados e um sobrevivente em meio ao pisoteio descontrolado de um recreio escolar. Elas recolhem e salvam o ser recém nascido, mas a sirene toca, acabou. Sua liberdade altruísta, messiânica e ativista agora teria que acimentar e concretizar no turno da adultização dos famosos bancos escolares. Em seu ar de salvação procuram de forma urgente o diretor da escola como a tentativa de aderir a essa emergência.
E, sim. Conseguiram mais rápido que pensavam, valeu correr com todo cuidado, pois no corredor estava a solução. Num corredor de escola, o famoso corredor que muitas coisas não deveriam ser resolvidas ali, mas acabam sendo, o tal local místico-realístico não decepcionou. O diretor e a diretora andavam e num ataque delas com olhos lacrimejados pedem ajuda, mostram e explicam tudo que acharam em sua missão de resgate, busca familiar, pesquisa de habitat e da tragédia de um assassinato familiar. Deduziram o temporal e ventania da noite anterior, restos de ninhos espalhados, mas nada nas árvores da escola (devendo ser de fora), nem o sinal da pobre mãe. Um caso de se admirar e colocar inveja em qualquer policia federal, detetive particular e hackers da vida moderna. Os diretores ponderaram junto sobre a dificuldade da vida deste passarinho sem a mãe, mas ponderam também sobre o olhar determinado de esperança de duas crianças em salvar uma vida, dar zelo, cuidado e querer ensinar a voar para viver livre esse ser; muita ponderações... poucos segundos... turmas entrando... decidido. Os diretores iriam cuidar dele até o final da aula, já que elas iam cuidar deste ser em casa, mas qualquer coisa era para trazer para a escola de volta, se os pais não quiserem ou se ele passar mal.
Sabe, uma escola pública a demanda é muito grande e o recurso humano cada vez menor, são famílias, comunidades, histórias e mazelas da sociedade tudo dentro deste ambiente de convivência. Mas se não pararmos para salvar estas vidas, espécies e suas ecologias que não estão emparedadas, tanto as crianças como os passarinhos, nada vale. Tudo perde o sentido. Ali, naquele cuidado de duas crianças e um pássaro envolvem: elas mesma, as famílias, os colegas de turma, os funcionários, os professores e esperança de uma sociedade.
Se ele viveu? Se elas fizeram tudo e nada deu certo? Se foi partilhada a tentativa? Se sofreram?
Bem, a vida foi partilhada, compartilhada e cuidada com todo amor, afeto, alegria, tristeza, frustração, coragem, esperança, carinho. Tudo que a sociedade precisa mais entre espécies, entre a sua própria e com as outras. Naquele momento a educação e o mundo ganharam um pouco mais de respeito, empatia e qualquer coisa que possa representar a grandeza daquelas meninas para com sua escola. E não foram únicas, reverberou ações de cuidado e bichos foram reconhecidos. Houve até passarinho adulto com asa quebrada, extremamente cansado e resgatado da quadra poliesportiva, sobrevivente de um recreio e o futebol. Isto gerou uma caixa furada, armário na sala de reuniões, um aquário, e a gritaria completa de uma supervisora e as funcionárias da secretaria de educação desavisadas de tal participante ilustre, na reunião delas. Ele estava calmo, descansando, mas resolveu tentar galgar seus vôos e principalmente em meio as gritarias e risadas.
Estes espaços precisam ser retomados, não o da caixa e do armário, mas o da convivência e a busca por mais pássaros e olhares de crianças nos adultos acimentados. Para assim, a escola e a cidade terem estes espaços da busca entre espécies, moradores antigos e toda ecologia que os seres precisam em seus ninhos.
AASS
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